Dias vermelhos

“Sim o tempo reina;

ele retomou sua brutal ditadura.

E está-me empurrando (…)”

– Charles Baudelaire –

Dias veermelhos

A pele que habito, vez ou outra, acorda insana e me domina. De tudo reclama. E me pira, enlouquece com requintes de crueldade, numa tortura silenciosa e cadenciada. É difícil contê-la e mais difícil ainda contentá-la. O sol queima demais, a sombra é fria, a água ardente e o café amargo. São tantas inconstâncias que o olhar fica nublado. Viro ostra, refém dessa pele que me orna, que me reveste e que agora, resolveu cobrar tributo.

Trato-a com cuidados de nobreza, na esperança de que, sedosa, me retribua o favor aliviando-me ânsias, dores e pensamentos cinzentos. Por hora o tratamento não mostra eficiência, posto que ela ainda está nervosa, ficou de mal com o tempo, esse senhor forte contra o qual não adianta lutar. Enquanto os dois travam uma batalha perdida, minha alma aprisionada sente os golpes e tenta, a custo, manter-se serena para amenizar as perdas.

É um corpo em luta, mostra-se forte e praticamente independente já que quase sempre, me domina. Forte e bravo, faz essa tempestade dentro de mim. Transformando-me, moldando-me de acordo com seus humores e necessidades. Por vezes sucumbo, exausta dessa luta diária, noutras, mantenho a cabeça erguida, o sorriso pronto e o coração bombeando um pouco mais. Forço-me a encontrar aliados entre os pensamentos e demais órgãos que me habitam, para ganharmos ao menos a batalha do dia, sem surtos, sem perdas mais sérias, sem desânimos grandiosos.

Ninguém me avisou que seria assim. Mesmo vendo acontecer com algumas pessoas, nunca acreditei que eu também entraria nessa guerra. Não gosto de concorrências, nem perco tempo com comparações inúteis. Olho para meus exemplos de vida, tão maduros, tão vívidos e … tão distantes. Não entendo ao certo o que acontece aqui dentro, ao longo da vida, dei pouca ou nenhuma atenção ao tempo e ao corpo, preocupada em viver os dias. Hoje, perco-me neles, tamanha a confusão que se instala, dentro e fora, como uma batida ritmada e meio ensandecida. Tudo mais do mesmo e ao mesmo tempo tão diferente. O tempo corre, a pele grita, o corpo luta e a vida segue. Como um relógio deixado de lado, até que a pilha acabe.

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5 comentários sobre “Dias vermelhos

  1. Penso que, às vezes, a alma é demasiadamente grandiosa para o corpo – e, por isso, ele acaba se esquivando ou reclamando de vez…

    Que os próximos dias sejam mais serenos e tragam certa paz ao seu íntimo, amada. Você merece!

    Um beijo imenso!

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  2. Você começou com Baudelaire, mestre em falar de um tempo que nem ia com tanta pressa como o que temos nos dias de hoje. Tudo por aqui parece que foi ontem e quando ou por mim já é amanhã. Ao menos tenho o que colecionar, ainda que sejam rugas. rs O meu corpo por enquanto não reclama os dias passados, apenas a memória o faz.

    bacio

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    • Oi Aline. Que alegria e honra ser uma das nomeadas por você. Agradeço imensamente a leitura, a interação e, claro, a nomeação. O verdadeiro e melhor prêmio, é saber que consegui, através da palavra escrita, alcançar você. Darei seguimento às nomeações, como pedido nas instruções. Muito grata. Beijo.

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