Arte Comum?

sarau Central do Brasil - apresentação

Comentando sobre a fantástica sensação de dar vida à minhas palavras-emoções em forma de texto [ou poesia, como queira], diante de uma plateia adolescente e incrível, ouvi de uma pós adolescente que, fosse em outro local, os jovens [de nicho econômico diferente] não teriam se emocionado e, talvez nem participassem do evento, porque para eles, a arte de escrever [ou só a poesia, não sei bem] é algo muito corriqueiro, comum mesmo.

Confesso aqui, que fiquei chocada com essa afirmação. Primeiro porque, sempre entendi emoção e empatia, algo acima de status financeiro, segundo, porque me não imagino jovens vendo como banal qualquer tipo de arte e/ou comunicação. Na plateia jovem a qual me referi no início, o que mais me encantou foi a sede pelo trabalho dos escritores, poetas e cantores que se apresentaram ali. Eram mais que hormônios, farra ou necessidade de presença na escola, muito mais…eram indivíduos de olhos brilhantes e atentos, ouvintes da palavra que eventualmente, eles mesmos poderão dar vida a sua maneira, eram almas sequiosas de emoções reverberadas que lhes tocasse, a razão e a sensibilidade. Jovens!!

Frequento saraus e já fiz outras apresentações para públicos adultos e, embora seja sempre deliciosa a troca de energia e afeto entre a “dizedora de poesia” e os ouvintes, nunca havia sentido nada tão intenso quanto a plateia jovem me proporcionou. Hormônios à flor da pele, calor, interesse, mas, acima de qualquer coisa, uma emoção pulsante, quase palpável. Única.

Depois de uma vivência tão rica, que me restituiu a esperança de uma sociedade melhor para um futuro que eu talvez nem veja, foi doído imaginar que, entre jovens financeiramente favorecidos, a arte não seja capaz de criar momentos igualmente coesos, onde duzentos, trezentos ou mil jovens, façam silêncio e vivenciem a arte do outro e tratem a sua própria arte com valor, com orgulho, com alma.

Fica meu desejo silencioso de que, a arte [seja na forma que for], jamais se banalize.

Anúncios

8 comentários sobre “Arte Comum?

  1. Cláudia, considero essa sua postagem um depoimento. Fico feliz com isso. Eu trabalho com informática e quando solicitado dou algumas aulas como voluntário e nessas turmas de jovens menos favorecidos financeiramente a aula é vibrante. Me sinto um maestro com a batuta na mão. A cada ação minha a reação deles é exatamente o que preciso para uma injeção motivacional de não terminar a aula nunca. Isso fez com que eu mudasse minha opinião sobre o futuro nosso, tendo em vista que essa população menos favorecida corresponde a 80% dos nossos habitantes. Então o pessoal está sentindo necessidade de cultura e o seu depoimento me animou e confirmou. Precisamos modificar a opinião da mídia noticiosa que só mostra drogados e bandidinhos entre os jovens. (Me desculpe pelo comentário/romance, rs).
    Valeu, Cláudia.
    Um beijo,
    Manô

    Curtir

    • AMEI o seu comentário, Manô. Obrigada por me trazer a sua vivência e olhar. É bom demais perceber que a vida lá fora não é só brutalidade, violência e primitivismo e que há, entre nossos jovens, essa fome de “trocar conhecimento”. Torço para que o mundo tenha mais de nós, espalhados por aí.
      Beijão,

      Curtir

  2. Ano passado participei de um projeto onde dei aulas para, não só adolescentes, mas também senhoras de artesanato, especialmente bordado ponto cruz. Foram aulas prazerosas em alguns sábados. E para meu espanto, dias atrás, encontrei em uma feira de artesanato uma das meninas que participou do projeto, já vendendo seus produtos, produzidos por ela mesma. A minha alegria maior foi quando ela chamou a atenção de todo mundo dizendo que havia sido eu a responsável pela delicadeza dos trabalhos dela.
    O seu relato me emocionou, Claudia, por que também senti a mesma alegria de alma. E tenho certeza que, enquanto existirem pessoas como a gente, a arte jamais será banalizada.
    beijos

    Curtir

  3. Cláudia, a arte não se banaliza e, concordo com você, tampouco o olhar da gente (e da gente adolescente menos ainda e posso dizer como mãe e professora desta galerinha); concordo com você: a arte extrapola fatores socioeconômicos. Tenho a dizer (e alguém já disse o mesmo) que a arte testemunha o fato de sermos imagem e semelhança de Deus (e veja que sou agnóstica! se Deus existe, a expressão artística é a melhor testemunha). Parabéns pelo seu trabalho. Não será já, agora, que ele dará seus melhores frutos. Mas no futuro, esse lugar incerto…
    A propósito, indiquei seu blog como um dos meus favoritos numa premiação e, caso queira dar continuidade, siga as instruções no post: http://wp.me/p1vStI-LT

    Curtir

  4. Uma pena mesmo que nem todos nós possamos oferecer o mesmo valor e a devida importância às oportunidades que estão à nossa volta, amiga…

    Você expõe isso brilhantemente em seu texto e nos faz pensar de maneira bem construtiva acerca do fenômeno da leitura.

    Obrigada por isso! E, por favor… continue! As letras – e os leitores – agradecem.

    Um beijo carinhoso!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s