Quando o medo pede licença pra existir

 – À noite é quando tudo se junta dentro de nós –

“Eu tenho medo de ver, as criaturas da noite
Estátuas sem rosto me olhando eu já vi
As criaturas da noite…”

– Oswaldo Montenegro –

Faz um tempo que a noite chegou e já não lembro exatamente quando ou como foi. Deve ter sido natural e sorrateira, como todas as noites costumam chegar. A diferença? Bem…acontece que essa noite, não foi mais embora. Não sei se algum dia tive medo do escuro… Lembro da infância, quando à noite no quarto escuro, de porta fechada, as sombras vinham me visitar. Conversávamos muito, eu e as sombras. Elas gostavam de contar histórias e raramente me deixavam com medo. Eram elas que embalavam meu sono e estimulavam os sonhos. Levavam para o imaginário do futuro ou para a vida solitária de uma menina pequena. As sombras, quando eu era miúda, eram o conto de fadas todo enfeitado com nuances reais. Naquele tempo, a noite ia embora e o dia colocava as sombras para dormir.

Cresci. Dias seguiam trocando de lugar com o escuro da noite e as vezes a lua era uma amiga aguardada para secar minhas lágrimas ou levar consigo, segredos doloridos que só com ela minh’alma dividia. Passaram-se muitos anos…alguns passaram tão rápido que eu esqueci de olhar a lua e andava tão exausta que já não percebia a chegada das sombras. As ansiedades e cobranças do dia a dia foram diminuindo as cores que o dia trazia e minha amiga noite, transformou-se em mera continuidade…extensão de atividades, mais horas dinâmicas, pouco ou nenhum tempo para o sonho, para o divã das sombras. Deixei de ser amiga delas, por urgência da vida lá fora, que me engolia como Mob Dick…nem percebi o quanto me perdia…

Até que um dia…A noite chegou e me encontrou semi consciente, sombras se aproximaram e, pela primeira vez, senti medo…tentei fugir e, sem perceber caminho, fui empurrada por uma das sombras, rolei escada abaixo. Uma parte de mim, nunca levantou daquela escada. A noite, nunca mais foi embora, eu, nunca mais fui a mesma.

Agora, quando as horas passam, o que há são noites mais enluaradas ou mais escuras. As sombras, não vão mais embora, apenas mudam de lugar e de humor. Nunca mais me empurraram, mas de vez em quando me puxam pra brincar de roda…e como crianças animadas sem noção de força ou perigo, rodam num frenesi estonteante, desses que não deixam lugar pra equilíbrios…

– Cláudia Costa –

 

*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras Aurea Cristina, Claudia Costa, Fernanda Farturetto, Lunna Guedes, Maria CininhaMariana Gouveia e Tatiana Kielbeman

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5 comentários sobre “Quando o medo pede licença pra existir

  1. Penso que cada uma dessas sombras faz de você a mulher forte, linda e incrível que é. Sem tropeços, não há aprendizado. Não existe caminho.
    Nem sempre as dores são fáceis – quase nunca, eu diria -, mas as provas estão aí para demonstrar o tamanho gigante da sua garra.
    Que permaneça a noite… que fiquem as sombras… mas que nunca se deixe esvair a sua luz interior, que é divina.
    Beijo enorme, com muito amor sempre!

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  2. Eu nunca tive medo do escuro. QUando criança, gostava de fechar os olhos para por fim a luz do dia. Fechar os olhos para abraçar a minha escuridão. Sempre achei que aqui dentro de mim era uma noite inteira. rs

    bacio

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