Tempo Escorrido

“Eu não sei fazer metáforas

porque não compreendo metáforas.

Para mim, tudo é literal.”

– Eliane Brum –

Nua. Pálida em frente ao espelho. Silêncio. Apenas as marcas conversam entre nós. Escorro…meus olhos estão caindo…a pele está perdendo o viço. Desconheço o reflexo naquele espelho. Toco a pele diversas vezes, como quem quer ter certeza que ali na frente, aquela semi desconhecida ainda se move pela minha vontade. Acontece que a incerteza nasce…então…foi nesse rosto que me transformei?

Sorrio. Uma tentativa tímida e medrosa de reaver algo familiar ali. Não acontece. O rosto que sorri de volta tem lábios mais finos, sorriso estreito, dentes amarelados pelo tempo…não encontro o riso largo, imenso a dispensar lábios carnudos pela alegria de exibir um rosto feliz. Perdi…deve ter ficado em alguma foto do passado, há algum tempo atrás quando eu ainda conseguia ser leve. E crédula, claro.

Agora nos encontramos mergulhadas no silêncio mórbido, na perda, no esquecimento, nas dores…na estranheza…uma leve lembrança do rosto de antes, que mesmo se esvaindo em choro conseguia ter beleza, agora o olhar é triste até nos dias bonitos. Entranhou. As fotos viraram um borrão que só antecipa futuro. Envelheci muito antes do que imaginava. E não é só aqui no reflexo do espelho sem maquiagem…envelheci nas entranhas, que vão dando sinais de apodrecimento a cada mínimo exagero. Aprendi tarde a fazer escolhas que me protegem de mim, desse desamor, do mau humor do mundo, do mau olhado, crítico, sussurrado, enfadonho…Faz pouco tempo que fechei a porta para as vozes que só atormentavam e agora…Novamente cai no erro, no exagero das ansiedades, das expectativas, me atrevi a esperar respostas que não vieram…Envelheci cinco anos em uma semana…Angústias…São elas que aparecem no espelho quando olho. Estou vestida, numa tentativa insana de esconder meu corpo. Não adianta…minha alma tem olhos de raio x e, pelo aperto dos botões é gritante o inchaço…a gordura tentando aplacar ânsias, proteger do mundo, uma rota de fuga denunciada…

Não me preparei para o futuro. Jamais acreditei que ele chegaria. Agora estamos aqui, nos medimos frente a frente e o tempo ri. Ele sempre ganha a guerra, escorre a vida, acontece todo dia e desta vez, ludibria minha quietude. Escorremos…

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6 comentários sobre “Tempo Escorrido

  1. Mesmo no meio de todas estas angústias e ansiedades, ainda olho para você e encontro a menina-mulher-amiga que amo… O riso largo, que tanto nos encanta, é vívido em você… Pode ter adormecido por uns dias, mas eu tenho certeza de que, muito em breve, estará pronto a nos contagiar novamente!
    Beijos, com amor!

    Curtido por 1 pessoa

    • Minha amiga, tenho o hábito de colocar tudo na primeira pessoa. O mundo onde escrevo, é meu, mesmo quando não é…rsrs.
      Gosto de jogar nas palavras, misturas que se acumulam dentro de mim. Se o texto parece por demais angustiante, provavelmente é por conta das leituras que ando fazendo…densas…e como tudo, vão se amontoando por aqui.

      Obrigada por me dar suas palavras de volta.

      Beijos,

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  2. “Aprendi tarde a fazer escolhas que me protegem de mim, desse desamor, do mau humor do mundo, do mau olhado, crítico, sussurrado, enfadonho…”
    Ô, minha linda, eu vi o mundo e me vi, numa única frase sua. Ao largo deste mundo mal-humorado e enfadonho, do tempo que nos ronda como quem não quer nada, estamos nuas, diante do espelho… se o tempo é sacana, sejamos loucas, apaixonadamente imprevisíveis. Pode ser?

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