Confessional

“Mãe, vê se me ama
E faz que me avisa
Mas, mãe, concebe em mim
outra vida
Com o orgasmo que não deves ter tido…”

– Cazuza –

mãe e eu

Mãe, em mim, é sempre um chamado. Alguma urgência, puro sentimento e um tanto de revoluções internas e antagônicas.

Fato controverso, cresci. E como as lembranças de infância perderam-se por aí, não lembro de abraços, carinhos ou afagos nos tempos de criança. De lá, as memórias são bem outras…sem rostos. O realmente estranho? O sentimento tardio, meio sem motivo, meio resgatado do tempo que não lembro [nem quero]. Sei que hoje, em dias bons, silencio a falta do abraço materno, das rabugices, diferenças, delicadezas…das mãos finas de pele clara e dedinhos tortos onde reconheço-me pedaço, uma parte meio mal acabada do meu exemplo de fortaleza…agora tão frágil na aparência bela.

Tenho mais necessidade de seus afagos silenciosos do que das palavras, que me engasgam lágrimas culpadas por não saberem se esconder. Emoção à flor da pele na minha família, sempre foi sinônimo de coisa ruim, fraqueza, loucura e coisas do tipo. Nasci pato feio, numa família de cisnes, demorei a entender que também podia ser bela, mas isso é outro assunto…

Toda essa ausência de lembrança, me faz ter saudade de futuro, esse, no qual desacredito como quem não crê em fantasmas embora os ouça cotidianamente. Então, para minha surpresa, tornei-me mulher feita, com vida própria, um tanto distante do berço [quem nunca se distanciou para proteger-se, que atire a primeira pedra] e um espaço interno que parece preencher-se de tempos em tempos, no abraço materno.

São poucos…muito poucos, eu diria. Talvez por isso mesmo, me sejam tão caros. Ando mais dramática que de costume, ocorrem-me fragilidades desconhecidas e, mais ao fundo, um sussurro disfarçado de medo…medo de acabar me perdendo de vez nas sombras que andam tomando espaço nos meus dias. Agora entendo melhor as letras de Cazuza, feitas no leito convalescente e que tantas vezes chamavam por sua mãe… entendo a dor e a mistura de agradecimento, medo e culpa. Culpa por partir antes do tempo e deixar a mãe órfã de seu ventre, despedida antinatural. Minhas fragilidades, deixam-me de cara com a pequenez do ser humano, tornam minhas antenas mais atentas à doçuras, à importância das gentilezas sinceras, do abraço dado com afeto, da  energia necessária para se mudar acontecimentos. A fragilidade que o tempo me deu de presente, acordou meu olhar para as faltas que eu havia escondido embaixo do tapete do esquecimento.

Entre fragilidades, fichas que caem, questionamentos, cabeça erguida e no peito, um chamamento: mãe…tem dias que tudo que mais preciso, é o teu abraço…

Silêncio.

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4 comentários sobre “Confessional

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