Eu não me chamo AMOR

 O maior atestado de desamor

é o gesto amoroso forçado.

– Reinaldo Ribeiro –

Segredos guardados na Alma

Olha, eu sei que devia te agradecer ou me lisonjear por ser chamada assim: amor. Afinal, trata-se de uma palavra tão bela, delicada, profunda…e é exatamente por isso que algo em mim se revolta quando te ouço no automático, sem nenhuma emoção, a me chamar assim. A gente briga, eu tenho ganas de te enfiar as unhas até te ver sangrar [será que você sangra?], de dividir um pouco dessa dor alucinante que a sua indiferença me causa e você aí…com a cara mais insossa que alguém pode ter, me chama de amor para, logo depois, sem nenhum pudor, me jogar desamores pela cara.

Não! Eu me nego a ser nomenclaturada de amor, no meio de uma discussão , no fim de uma relação, no auge da indiferença e nessa coisa pseudo-educada, que você chama covardemente de conversa. Não! eu sou eu, uma mulher louca, a beira de um ataque de nervos ou de um ataque semi-homicida, uma alma incontida, cheia de interferências e interrogações. Anda! me dá um tapa na cara, me xinga de vaca ou de qualquer outra coisa, mas não me chama de amor sem nem saber o que é isso! Alguém te ensinou que é bonito dizer que ama? Você descobriu que mulheres abrem as pernas mais facilmente, depois de ouvirem essa palavra? Por que esse desrespeito rasgado com a palavra-sentimento? Chamar assim, alguém que você nem olha direito…é desrespeito, é vazio, é digno de pena.

Um dia, alguém se deu ao trabalho de escolher um nome pra mim, alguém teve que me registrar, lavrar em cartório um nome exclusivo, inteirinho pra mim. E agora, você, com esse jeito sem jeito, com esse tom de perdido, essa falta de dom, de sentimento, vem me tirar até isso…quer me diminuir tanto que até minha identidade resolveu roubar. Me coloca no mesmo patamar que todas as outras, que vieram antes e que você, com a mesma covardia, desamou…todas eram amor. Nenhuma delas tinha identidade, nome impronunciável, afeto, carinho, ódio…nenhuma tinha emoção. Eram todas sombras que passaram por você, levadas pelo encantamento da palavra: amor…Tolas! Todas nós, iguais e tão diferentes. Todas donas do chamado, da falta de posse, da tua irritante automatização verbal. Amor…não, eu não sou amor…nem seu, nem de ninguém, eu sou eu:  Amada, amante, mal-amada, mas não sou amor. E agradeça! Porque essa palavra que você usa tão aleatória e desrespeitosamente, é gigante na existência e, fosse eu o amor, te esmagaria sem dó nem piedade, devagar e lentamente para ver se, na dor, você é capaz de lembrar dos apegos, das importâncias, dos valores e da essência das palavras-sentimentos.

A cada vez que o teu desafeto me bate com força deixando aqui, essas placas roxas, eu me transformo mais em algo maior que eu e meu nome, viro ódio e mágoa, tudo misturado no vulcão da existência. Viro lava, amarga, amada, gigante…fuja! Suma, vá pra longe ou apenas cale a boca! Aqui, existe um nome. Lembre-se dele…para que possa assombrá-lo no futuro e nas noites insones, mas de jeito nenhum, ouse me chamar disso, que você desconhece e rejeita, não deturpe palavras…elas têm mais valor do que você e sua indiferença. Lembre! Eu tenho um nome…

eu não me chamo amor…

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3 comentários sobre “Eu não me chamo AMOR

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