Quinze Minutos

“E como ficou chato ser moderno,
agora serei eterno.”

– Drummond –

Eram cinco horas da tarde em Copacabana, Rio de Janeiro e, sou capaz de jurar: havia muito mais água transtornada dentro de mim do que naquele mar que estava à frente. Pra variar, eu andava transbordante, caótica, não cabia mais dentro do meu corpo. Bati nervosamente à porta, ansiosa e culpada por estar atrasada… É meu mundo de Alice: oscilo entre o gato risonho, um tanto louquinho, o chapeleiro que já encontrou sossego na birutice, e o coelho, sempre atrasado! Tratava-se de um encontro importante. Eu diria, à outra pessoa, todas as minhas dores de não caber, confessaria medos arraigados, choraria o mar inteiro e prenderia a respiração para ouvir o martelo do julgamento alheio, a rotular-me lúcida, fraca, perdida ou simplesmente louca (coisa muito comum hoje em dia). Levei quinze minutos contados no relógio, para metralhar minha juíza com as armas pesadas que vinha usando contra mim. Nem cheguei perto de desfiar meu rosário!

Passei dois dias querendo aquele encontro. Colocando, ali, a esperança de alívio para as tormentas que insistiam em me afogar de dentro pra fora. Lembrei-me de uma conversa antiga com o Paulo (sim, o Coelho), em que ele afirmava que um dos momentos mais prazerosos do humano, o sexo, não durava mais que onze minutos. Lembro que eu ri…do alto dos meus tenros e deliciosos trinta anos, eu ri da afirmação do Paulo… Naqueles tempos, a cama durava hooooras, entre brincadeiras e possíveis selvagerias… Hoje, com exatos quarenta, nada gostosos, entendo o Paulo e dou a mão à palmatória. São pouquíssimos os prazeres que duram mais que os tais onze minutos. É o tempo de esvaziar a primeira garrafa de vinho, numa boa conversa entre amigos falantes. É bem mais do que dura uma gargalhada boa e o sexo…bem, melhor deixar pra lá o comentário. Voltemos aos quinze minutos.

Lembram que bati ansiosamente na porta? Pois bem, fui atendida por uma mulher ruiva e de voz muito calma. Falando baixo e pausadamente, ela me deu os recados sérios: – Ali, não eram tolerados atrasos –  Após onze minutos (contados no meu relógio), contou que não haveria veredicto no meu julgamento, logo, não existiriam atenuantes para as tormentas tão cedo…não do modo “fácil”. Eu, como boa ré, deveria voltar ao tribunal dentro de alguns dias, para novo julgamento. Desta vez, sem atrasos – disse-me a voz pausada e vermelha.

Andei pensando sobre loucura… – desculpem-me, mas não tenho pudores em escrever ou falar sobre algo tão corriqueiro atualmente – essa loucura de olhos vazios, da falta de sonhos realizáveis, das telas de jogos violentos, da falta de palavras… A loucura real que invadiu os dias reais. Não penso na loucura factível de quem ousa fazer o diferente, pois isso ainda parece sanidade, independente de ganhos ou perdas materiais. Penso e confesso: tenho medo da loucura vazia… silenciosa… perdida em alguma esquina que coleciona almas.

Retorno ao primeiro dia de julgamento que deu em nada. Pergunto-me se quem lê deve me achar confusa, desastrada em meio aos pensamentos e já corro, querendo me defender (nem sei ao certo do quê)… Foram quinze minutos depois de dias de tensão à flor da pele, nos quais as angústias me tiravam do sono, e os sonhos eram de correria, tumulto e confusão. O inconsciente entrou na festa da tormenta e estava se divertindo. O Gessinger (sim, o Humberto), me contou que a atualidade anda correndo e que já não damos mais do que “seis segundos de atenção” para nossos interlocutores ou para nossas próprias histórias. É, meu caro Gessinger, hoje em dia o Papa voltou a ser Pop, a histeria anda à solta, as ruivas falam com pausas, as loiras gritam, morenas se armam até os dentes e o Pop… ah, esse continua sem poupar ninguém.

Enquanto eu, caro amigo que me lê, ainda mantenho acesos os sonhos, mesmo no olho do caos. Acreditei, por exemplo, que teria meu placebo em quinze minutos ou que você teria a paciência que me falta e chegaria até aqui…o fim da narrativa que não cabe no corpo, no copo e que, depois de dois dias, trocou a tormenta pela jangada no oceano. Estou à deriva, mas os projetos são tangíveis, estão sendo calmamente materializados, devidamente ponderados. Será essa razão, calma e segura, o placebo do mundo. Enquanto a alma não chega.

Obrigada pela companhia e pelos quinze segundos de atenção, se você chegou até aqui. Abra a alma, solte o verbo, enlouqueça enquanto pode e permita-se… enquanto sua alma cabe.

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