Sem compromisso com a realidade

“Só quem se aceita
tem paz de espírito.”

– Fabrício Carpinejar –

Talvez você não saiba, mas eu andei sofrendo. Sofri terror noturno, dias de realidade tão concreta como uma bigorna. Sofri pela espera, pelo excesso de palavras… sofri pelo excesso de sentimento.

Sim, eu sei que você não quer saber disso. De amarga basta a vida e todo mundo tem lá suas dores particulares. Dizem por aí que não é bacana falar sobre isso. Se a sua realidade no momento é dolorida, por favor, poupe o mundo de si mesmo. É claro que haverá aquelas almas “boazinhas” te dizendo para não ficar assim, ainda que você não diga uma palavra, que tem que rolar bola pra frente e um sem-número de coisas fofinhas igualmente infernais, para o seu bem.

Não é à toa que eu detesto gente boazinha, com todo meu ser. Gente!! Tem sacanagem maior do que minimizar a dor do outro – mesmo antes de sabê-la – tratando-a como se fosse uma escolha consciente e um papel simples de ser jogado fora? Vou te contar um segredo: a dor do outro também dói pra caramba!! Pois é… e você achava que só a sua dor era pesada… Se, por acaso do destino – ou escolha – você é destas almas que, mesmo com o mundo desabando, põe um sorriso no rosto e bota o bloco na rua, tudo bem…é uma escolha sua , e não dá pra marretar o outro com a mesma máscara que você utiliza.

Antes que me apedrejem e joguem meu nome na lama, vou esclarecer: não faço apologia à tristeza. Também não acho bacana aquela alma, cujo rosto e olhar ficam nublados e se enchem de lamúrias [sempre as mesmas, ó vida, ó azar...] ao primeiro sinal de atenção. Concordo que essa energia pesa e que todo mundo acaba fugindo do que eu chamo carinhosamente de “dementadores da vida real.”

Hoje, quis dividir com você, algo como um meio termo. Quis te contar que andei sofrendo, porque você costuma acompanhar minhas letras quando amo, rio, sou grata ou fico muito “p… da vida” com algo. Essa coisa de partilhar momentos variados é qualidade sine qua non para relacionamentos humanos qualitativos. Sei que todo mundo adora alardear vitória, alegria e toda sorte de bobagem, mas sei também que somos muito, muito mais que isso. Somos feitos dos nossos silêncios, de nossas dores, de nossos lutos.

Respeito o seu/meu momento, seja de falar ou de silenciar. Mas, quero muito que você saiba que é permitido sofrer. É permitido doer. É permitido andar descabelado, ser meio pirado, misturar alhos com bugalhos. É permitido ser você! Do jeito que é, no momento em que estiver, porque nós sabemos que tudo é construção… e momentos são nossos tijolos internos para mudar. A arte da palavra dita, erudita, analfabeta, tecnológica ou internética é uma ponte. Uma vez que você conta a sua dor, chora no olho do amigo, aquela dor se dissipa um pouco no universo. Assim ocorre com toda palavra dita. A poesia falada ganha vida e uma conotação diferente, cada vez que a voz do locutor lhe empresta sua alma. A dor, a poesia, a alegria, a vitória, a ideia, o amor… tudo que é nosso merece tom, voz e ouvido. Merece alívio, vida e abrigo.

Vim até aqui escrever da minha dor, que talvez nem seja real [afinal, o que é realidade?], porque um “amigo” me convidou a sair de perto por não rir de suas piadas. Ele não quis saber de nada, porque precisa esconder, na euforia mundana, a sua dor. Saí. Agora, venho aqui te contar que amigo também rasga a roupa da tristeza para encontrar abrigo na alegria do outro.

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3 comentários sobre “Sem compromisso com a realidade

  1. Que desabafo estrondoso. Cláudia. Acabei de comentar em seu outro post que tenho preferência mais pelas dores do que pelas alegrias. Adoro descontração, sou até meio palhaça, mas concordo com a aquela música que diz que “rir de tudo é desespero”, ou, como disse Victor Hugo:
    “Desejo por sinal que você seja triste,
    Não o ano todo, mas apenas um dia.
    Mas que nesse dia descubra
    Que o riso diário é bom,
    O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.”

    um beijo!

    Curtido por 2 pessoas

    • Aurea, não sei [de verdade] se tenho preferência pelas dores do que pelas alegrias, mas é um fato que , percebo, no sentido de sentir, o ser humano muito mais honesto e menos mascarado nas dores do que nas alegrias. A minha admiração reside aí, no fato de conseguirmos ser intensos nas duas formas, mas é incrível quando alguém desnuda suas dores.Há uma grandiosidade e força inserida nisso que poucos de nós parece alcançar, mas…novamente fico feliz em saber que não estou sozinha nesse barco.

      Seja sempre muito bem vinda!

      Beijos meus,

      Curtido por 1 pessoa

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