Estilhaços

Coisas que parecem
pequenas e banais,
machucam a ponto
de me fazer mancar.

– Ricardo Cordeiro –

Sabe, hoje, quando te olhei no espelho, percebi teus pedaços. Eram tantos e te deformavam a aparência [antes tão segura], de um jeito tão seco e real, que me assustei. Você, que sempre me pareceu tão exuberante, tão cheia de personalidade e certeza, mesmo dentro do caos, aparentemente tão intensa, tão inteira…

E eu te admirava tanto por trazer sempre a cabeça erguida, mesmo quando parecia tão errada aos olhos externos, que só te viam superfície. Era assim que eu te enxergava: quase um navio de guerra, ricamente ornado e paramentado com o que havia de melhor, resistente às tempestades, às batalhas, aos inimigos e a todo tipo de intempérie. Sim, eu já havia te visto derrubada, já havia vislumbrado tua casca arranhada, teu interior alagado e a estampa esfarrapada e, ainda assim, te percebia inteira a cada vez em que te olhava, sempre com a argumentação emotiva e apaixonada dos que carregam consigo os desamores da vida e, talvez por isso, aprenderam a se manter de pé.

Então, naquele momento, eu te via pela primeira vez desde que te conheci. Fragmento de uma alma estilhaçada, cortada em tantos pedaços disformes, que nem me atrevi a contar. Apesar do susto, não consegui parar de te olhar. Era uma nova você, tão frágil, tão precisada de abrigo, de abraço, de sentido…

Fiquei ali parada, tentando entender quem era aquela pessoa que eu pensei conhecer tanto e, no entanto, jamais havia percebido de fato. Olhos grandes, marejados. Lembrei que te dizia que eram olhos de fim de tarde, com aquele tom castanho amarelado que só os fins de dias trazem. Agora, carregados de confusão e de uma dor tão profunda, que rotulá-la de tristeza quase seria uma alegria. A primeira vez em que te vi despida de alegoria, de riso, de possibilidade. Cada pedaço de imagem sufocando um pedido urgente de socorro, que havia se perdido no silêncio do tempo. Engoli palavra, por falta de coragem. Fui tomada por um medo incrível de te despedaçar ainda mais. Desviei os olhos e me obriguei a dar outro rumo ao pensamento.

Quem sabe, se eu fizesse de conta que não vi o teu quebra-cabeças desmontado, ainda poderia te dar a mão, te oferecer amparo e, talvez, até te ajudar a montá-lo?

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3 comentários sobre “Estilhaços

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