Eu_lápide

“Sou um ensaio para a solidão,
que se disfarça em alma
para dançar extasiada
a poesia do mundo.”

– Tatiana Kielberman –

Sentávamos à mesa da cozinha ampla, tomando café, enquanto conversávamos sobre a vida, suas nuances e vias tortuosas. Mulheres de fogo, tentando amenizar seus incêndios, na troca de existências. Ela, majestosa, loira, sempre arrumada [e eu, ingênua, pensava só existirem mulheres assim, nas novelas…]. Eu, robusta e pequena, tão caótica quanto afogueada, ouvia atenta suas colocações sempre recheadas de emoções, que conversavam num link direto com minhas profundezas. Éramos ela e eu, naqueles momentos, a mesma alma em duas.

Parabenizava-a, pela língua mais comedida naqueles dias em que a visitei. Minha anfitriã, com ares de mama judia, é dessas personalidades fortes, que se fazem existir [e ouvir] mesmo quando não estão presentes, posto que, quem a conhece, já imagina suas inquietações de perfeccionista. Ela talvez nem imagine, mas sua existência me emociona. Apesar de pequena, não me intimido perto de sua majestade, dou-lhe abraços que gostariam de transpassar corpos e acarinhar direto cada emoção sentida. Quando discordamos, somos taxativas, murmurantes, gestuais [mulheres de fogo, não sabem falar apenas com a boca, precisamos do corpo inteiro para acompanhar nossas chamas] e, não raro, risonhas.

Falávamos de vida e, de repente, caímos na morte como tema. Particularmente, não temo a morte. Não gosto de seus avisos de aproximação em vida, mas não chego a temê-la. É nossa próxima etapa para algum estágio diferente ou para o nada [quem sabe?]. Minha amiga rebelde, entre lágrimas, conta de suas perdas e seus motivos para ser briguenta de vida, enquanto eu apenas sorvo suas histórias tão recheadas de beleza quanto suas lágrimas. É um momento leve e lindo, daqueles para se guardar na memória. Digo um pouco do que me transborda e ela ri. Pede-me para escrever seu epitáfio com palavras como aquelas. Eu conto que escreverei feliz os dizeres de sua lápide, um dia, daqui a muitos, muitos anos, mas que, antes disso, faço questão de eternizá-la em letras vivas neste mundo. Eulápide, nasci naquela conversa animada, que me afastou das tormentas e devolveu leveza às minhas horas. Minha loira majestosa, há de ter dizeres vivos que lhe intitulem a existência incendiária, porque nós existimos mesmo é nas histórias contadas, que nos eternizam.

É tão cheia de vida, que briga com suas dores [altiva] e decreta que irá a festas, visitas, passeios e tudo que lhe for de direito. Essa mulher faz jus à palavra existir e, não satisfeita, ainda contagia quem chega perto.

Vida longa, minha rainha!!

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