Além do que se foi

“A vida não é uma pergunta a ser respondida,
é um mistério a ser vivido.”

– Buda –

Era uma manhã de quinta-feira, sol a pino, barulho nas ruas logo cedo, a correria matutina de todos os dias. Rotina. O telefone tocou insistentemente ao meu lado e, pelo horário, estranhei. Atendi. A voz do outro lado me contava a notícia: uma amiga querida havia “feito a passagem”. Emudeci, completamente incrédula. Dois dias antes, trocava com ela percepções da vida atual, nossos receios, previsões, posturas. Nós nos conhecíamos desde meninas e havíamos nos perdido pelas circunstâncias naturais da vida, que une e separa pessoas a seu bel prazer. Graças às redes sociais, reencontramo-nos e estabelecemos natural sinergia. Agora, a notícia tão inesperada quanto absurda: MORTE. Inacreditável.

Calei-me ante o acontecimento. O silêncio é a única coisa em mim capaz de vivenciar perdas. Minha forma conhecida de respeito. Não consigo chorar, embora pense nisso, mas normalmente choro pelo que transborda e não pelo que falta. Na falta, viro oração silenciosa, devoto-lhe pensamentos, lembranças… Construo um altar espiritual, permeado de memórias, aprendizados, trocas.

Procuro alento em outras falas, lágrimas alheias que não me comovem, mas aumentam meu vazio. Começo a contar tempos, refazer caminhos. Não penso em fugir da morte, seja a minha ou dos que rodeiam… Torço apenas para partir antes, de modo a não sentir tanta saudade e, quem sabe, ter a honra de recepcioná-los com sorrisos largos “do outro lado”. Depois de perder algumas pessoas muito amadas para a própria vida, não é a perda pela morte que me deixará com medo.

Sim, sinto dores, pelo corpo todo… são meus órgãos se realocando, tentando preencher o espaço que fica. Perder dói. Pensar nisso pode doer ou não, dependendo da crença que tenhamos. Deste lado, acredito em adeus dado em vida: esse sim é forte, fatal. Já a morte é, para mim, um “até breve”… daqui a pouco a gente se encontra, numa outra esquina. É a vida… preciso morrer para adubar árvores que ainda não plantei, para [quem sabe?] ser lembrada por quem, em vida, me esquecia, com alguma fagulha de carinho, de talvez…

Morte, de verdade, acredito que seja essa, do total esquecimento. Quem vive na lembrança daqueles com os quais conviveu não morre, apenas se ausenta temporariamente… faz viagem para lugar inédito, cheio de mistério, onde não serão permitidas fotos para póstuma postagem nas redes.

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