Quando você foi inédito pela última vez?

Você oferece um passado usado sob o disfarce de futuro.
Alcança aquilo que foi ensaiado com o antecessor.
Não se dá o luxo de disfarçar, o trabalho de maquiar,
colocar uma manta no mobiliário da memória.

– Fabrício Carpinejar –

…então novamente você está enamorado, de bem com o mundo, sentindo-se iluminado e um ser humano bacana, sorridente, cheio de gentilezas e boa vontade com a vida e, por incrível que possa parecer, com seus semelhantes desconhecidos. É momento de tirar do seu baú pessoal toda sorte de galanteios, amenidades, “queridices” em geral e ser benevolente [sejamos sinceros, você nem lembrava mais que era capaz de ser tão fofo com quem nunca te viu MAIS MAGRO] com absolutamente todos os que passam pelo seu caminho.Nesses tempos azuis, não há chefe irritante que consiga te tirar do sério, amigo reclamante fica “de cara” porque, a cada reclamação, você saca a sua enciclopédia de autoajuda, fazendo-o perceber como a vida é sábia e que basta uma pitada de percepção para que o ruim torne-se uma ponte para o sucesso.

É, meu amigo, a vida não tá fácil pra ninguém. Na era da alegria e das pessoas resilientes, super adaptadas aos danos catastróficos do dia a dia, ou você faz o jogo do contente, ou vai ser solenemente ignorado pelo povo.  Existe a máxima de que, quando te perguntam como você está, a única resposta permitida é que tudo está ótimo e cada dia melhor. Se for diferente disso, seu interlocutor terá mil compromissos urgentes para tratar naquele momento e, infelizmente, não poderá te dar atenção…mas ligue um dia desses para conversar [não se ofenda caso ele esteja muito ocupado para atender sua ligação]… É aí que você sente uma necessidade abismal de renovação. Veste aquela roupa que super te valoriza, dá uma caprichada no visual capilar, põe a sua versão particular da máscara do Coringa e sai por aí repetindo no piloto automático tudo aquilo que parece bacana para o outro ouvir. Lê sobre coisas que nada têm a ver com a sua realidade apenas para ter um cardápio de assuntos que te façam parecer mais inteligente e antenado. Nada muito específico, nada profundo [profundidades são confundidas com “papo-cabeça” e isso é coisa de chatos]. Segue o baile, fingindo adorar o ritmo da moda.

Com sorte, talvez você acorde um dia perguntando-se do que realmente gosta, qual afirmação realmente te representa, quando foi que você fez aquela declaração apaixonada, inédita, exclusiva, de coração…pelo sentimento real e não apenas para colecionar conquista. Talvez, você se incomode com sua falta de identidade particular, talvez [quem sabe?] até sinta falta dos seus incômodos questionamentos, de vestir aquela blusa laranja que você deixou de lado porque alguns disseram que era cafona. Nesse momento idílico, em que você se permite existir fora da caixinha, esquecendo-se dos rótulos pesados e cansativos que os humanóides repetem, é possível até que você se permita viver.

Boa sorte, ao acordar.

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3 comentários sobre “Quando você foi inédito pela última vez?

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