Entre exageros e vazios

“O vazio só existe para os desapegados,
para os que suportam e celebram o silêncio
que possibilita-nos ouvir os sussurros da intuição
e não os gritos infantis dos desejos imediatos.”

– Marla Queiroz –

Acordei vestida de saudade. Esse sentimento que, entre tantos outros, rotula faltas… Saudade é a palavra bonita (?) que disfarça um certo vazio que nos ronda. Tanto mais penso sobre o assunto, mais percebo o quanto somos feitos disso: falta. E, quanto mais sentimos sua presença, mais nos debatemos interiormente, numa espécie de desconforto infantil crescente. Começamos a olhar para os lados, à procura de algo que não fazemos ideia do que seja, buscando no externo algo que supra.

Lá vamos nós… nos entupir de trabalhos, prazos, festas, pessoas, sexo, bebidas, drogas, saídas, viagens… Fugas, inconscientes (ou não), de nós mesmos. Assim como os dias que se seguem, a falta alavanca em nós todo tipo de ansiedade. Tornamo-nos inicialmente mais elétricos, necessitados de preenchimentos… damos vazão a pensamentos diversos e, não raro, vamos ali… arrumar uma “sarna” para nos coçar e – quem sabe (?) – nos livrar dessa sensação incômoda de falta.

Como crianças à procura de uma nova distração, saímos a campo para desviar o pensamento do ponto real e quase imutável da tal falta. Buscamos na euforia uma fuga bastante conveniente e semi-eficaz. Digo semi-eficaz por saber que a euforia passa…e a falta inicial costuma ficar bem mais latente depois disso. Gostamos de nos pensar diferentes e até somos, culturalmente, mas em certas sentimentalidades tornamo-nos mais previsíveis do que gostaríamos de admitir. Admitir dói, incomoda mais. Sigamos na previsibilidade e encontremos um “culpado” externo para esse incômodo tão nosso quanto desconhecido no âmbito consciente.

Casados arrumam flertes, solteiros embebedam-se de novas pessoas e possíveis estórias tão legais quanto efêmeras, outros tantos, independente de status, seguem… entupindo-se de qualquer coisa que dê alivio. É humano, natural. Os mais quietos, talvez, derivem à beira de abismos depressivos. Possibilidades. Vamos brincando na nossa montanha-russa interna, onde os altos e baixos se alternam, por vezes vagarosos e em outras numa rapidez assustadora. Vamos percebendo nossos entornos… a rapidez com que somos capazes de dar lugar ao outro que nos habita, seja por conveniência ou por necessidade. Mudamos.

A falta, essa senhora sorrateira que ronda a todos nós vez em quando, é propulsora de autoconhecimento, de mudanças em nossas entranhas inconscientes. A falta, meu amigo, é para quem pensa. Para aquele que anseia estar vivo e acompanhar os dias, no seu melhor brilho. É a possibilidade de se olhar sem. Para viver a falta que nos habita e aprender com ela, é possível silenciar entornos, dar tempos ao corpo, ouvir-se… Vale lembrar que espaços vazios estão prontos para preenchimentos. Não há vazio que não aguarde algo bom para preenchê-lo… naturalmente.

Toda essa conversa, meu bom leitor, se deu porque hoje, acordei saudade…

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