Sobre janelas e olhares

“Quando abro, a cada manhã
a janela do meu quarto
É como se abrisse o mesmo livro
Numa página nova…”

– Mario Quintana –

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Hoje, o dia nasceu assim… cinza, com um mistério inserido nas horas. Chuviscos finos e constantes, ventos leves e amenos. Pare para perceber como pessoas brigam menos em dias assim. Os humanos parecem ficar dois tons mais calmos. Grande parte, quando pode, ausenta-se das ruas e, se não podem, circulam menos hostis. São mais belos esses dias por aqui.

Ultimamente acordo antes do sol e posso me dar ao luxo de, munida da minha xícara de café, dar boas-vindas ao dia. Perto do local onde preparo cuidadosamente meu líquido sagrado, há uma janela grande, cuja vista dança encantada pela diversidade. Espalha-se pelo horizonte um infinito de casas residenciais coloridas, entre morros verdejantes e, eventualmente, ruas de terra batida. Nas primeiras horas do dia, habito um local que me remete aos contos de Machado [o de Assis], tamanha a simplicidade que meus sentidos registram. Aqui, ainda há moços que entregam pães em bicicletas e nos avisam que o dia começou, com o toque de suas buzinas que alardeiam todo tipo de guloseima, para alimentar desde trabalhadores corridos a matronas prendadas e cuidadosas da nutrição familiar.

Domingo, descobri na casa vizinha um cavalo. Era preto, de pelo lustroso, todo imponente. Lindo! E eu, que desde menina nutro um amor quase reverencial por esses animais possantes, fiquei completamente embevecida. Degustei todo meu café apreciando aquela cena bucólica: o grande cavalo negro imóvel embaixo da chuva. O cheiro? Terra molhada… Comentei que ele estava imóvel? Pois é, por longo tempo, assim me pareceu, até que ele levantou a cabeça em direção à minha janela, cinco andares acima, e tocou a minha alma. Ficamos os dois ali, no silêncio do início da manhã, enquanto o resto da cidade ainda dormia, a fitarmo-nos e espreitar a presença curiosa um do outro. Foi mágico.

Desde então, meu olhar, que vem passando por mudanças constantes de ritmo, pousa naquele quintal à procura do garanhão. Nunca mais o vi, nossas almas conversaram naquele domingo e, tenho certeza, marcaram encontro para outra ocasião. A minha [alma], ficou com essa imagem tatuada e uma sensação inesquecível de aprendizado. O garanhão ficou de me ensinar algo sobre serenidade e imponência, em meio a tempestades.

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