Crenças, mudanças e circunstâncias

“Às vezes, o poeta ouve a harmonia das palavras

– outras vezes, só ouve o “batecum gererê”

-Manoel de Barros –

crenças

Até ontem, acreditava em estrelas. Acreditava em pessoas capazes de um amor só – abnegado e crescente -. Acreditava no poder da lua, do mar, do sol…na cura pela natureza. Até ontem, acreditava em amizades infindas, em pessoas boas de verdade e com quase nenhuma maldade escondida.

Até ontem, tinha certezas inabaláveis, acreditava nos brilhos dos olhos, na vontade de acertar, acreditava nos outros [primeiro de muitos erros] até mais do que em mim. Sim, também aprendi a duvidar, inclusive, das “certezas”, contudo, ainda assim, teimava em acreditar.

Acreditava no poder do pensamento forte, nas respostas as orações feitas com alma, na energia das cores, na evolução das vivências e no saber misterioso inserido nos erros aparentes. Acreditava em posturas boas, em silêncios ricos e sábios…acreditava no tempo, que melhora [?] tudo.

Pode parecer ridículo pra você que lê, mas eu cheguei até aqui com esse “q” de crença e esperança. Até ontem…

Ontem, a casa foi levada pela enchente. Vi meus pertences externos irem embora por entre meus dedos e percebi que tudo quanto eu havia levado uns anos para ter e manter, havia sumido como se tivesse existido apenas na minha mente, criação da minha ilusão romântica de pessoa mediana que anseia por sobreviver com algum conforto.

Vi minhas crenças mais profundas afundarem junto com o fiapo de esperança por uma vida melhor, mais saudável. Foi-se…tudo, tudo… E, ao que parece, restei eu, um corpo solitário e um tanto oco [não fosse por esse tanto de água que me inunda]. Tive crise de riso, achei graça dessa sorte torta que a vida trouxe. Entendi o tal provérbio: “quem colhe vento, semeia tempestade”. A tempestade me engoliu. Se te parece que tenho pena de mim, engana-se, não tenho sentimento algum além de um certo vazio amargo, que se traduz mais em sabor do que em sentimento, não é verdade?

Hoje, a água que levou tudo, começou a secar, mas nem importa muito, porque agora o deserto é a maior parte do meu mundo. Não pode ser a toa esse calor todo…ainda devo suar, já que as lágrimas também secaram.

A vida começou ontem e parece que, de novo, terminou no fim do dia, antes que eu pudesse festejar o sonho virando realidade, antes que eu me tornasse adulta e individualista, antes de fazer do mundo o meu umbigo, a água levou meu mundo…

Será que sobreviveremos [eu e meu umbigo] até a próxima tempestade? Será que morro de inanição antes do inverno ou será apenas isso: do pó ao pó?

Quem sabe…?

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3 comentários sobre “Crenças, mudanças e circunstâncias

  1. É impossível saber o que é isso a menos que se viva. Qualquer palavra que brote dentro de nós parece vazia nesse momento. Então te deixo meu silêncio e com ele uma mão amiga, inútil por certo diante das circunstâncias, mas que pode ser colhida da forma como melhor te confortar. Apenas diga se tudo passou e como tudo agora está? Gr. Bj.!

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