A delicadeza de existir

O tempo mudou de rotação. A vida pirou completamente e eu, que antes era meio louca, agora me vejo quase sã num mundo de loucos medicados e outros (sem remédio?) senhores de verdades únicas e absolutas.

Cansei! Cansei pra valer. Alguns chamam de depressão, outros de preguiça, falta de vergonha na cara, a medicina arruma mil nomes de doença e nada disso me parece real, nada disso me parece minimamente perto de ser verdade. Já passei por depressão algumas vezes e percebo uma diferença abismal. Ultimamente, a pouca tristeza que me permeia é externa e vem dos barulhos do mundo lá fora. Aqui dentro, vivo de remoer uma ou outra frustração, mas elas quase não falam. Aqui dentro há mil crenças, zilhões de sentimentos calados, abraços não dados, corridas não feitas. Há respirações profundas, paciência e auto perdão sendo cultivados como sementinhas recém plantadas.

A mente, volta e meia, sai pra passear. Fica vagando por horas ou minutos, assiste mil coisas que aos poucos vai liberando. Minha mente fugiu de casa por não aguentar o peso da realidade, por não saber conviver com todas as regras e necessidades da vida capitalista moderna, pela total incompetência em competir com meus iguais.

O corpo dói. Às vezes uma dor  suportável, onde risos e trabalhos conseguem existir e se sobrepor, em outras, a dor é tanta que anestesia a existência e me carrega pra um mundo do qual não lembro.

Viver é simples, a gente é que complica tudo com ilusões variadas e competições mesquinhas e muito bobas. A maior parte do tempo, consigo rir dessas bobagens sérias da vida cotidiana, outros tempos, sou contagiada e fico ácida, arredia.

Respiro.

 

Eu_lápide

“Sou um ensaio para a solidão,
que se disfarça em alma
para dançar extasiada
a poesia do mundo.”

– Tatiana Kielberman –

Sentávamos à mesa da cozinha ampla, tomando café, enquanto conversávamos sobre a vida, suas nuances e vias tortuosas. Mulheres de fogo, tentando amenizar seus incêndios, na troca de existências. Ela, majestosa, loira, sempre arrumada [e eu, ingênua, pensava só existirem mulheres assim, nas novelas…]. Eu, robusta e pequena, tão caótica quanto afogueada, ouvia atenta suas colocações sempre recheadas de emoções, que conversavam num link direto com minhas profundezas. Éramos ela e eu, naqueles momentos, a mesma alma em duas.

Parabenizava-a, pela língua mais comedida naqueles dias em que a visitei. Minha anfitriã, com ares de mama judia, é dessas personalidades fortes, que se fazem existir [e ouvir] mesmo quando não estão presentes, posto que, quem a conhece, já imagina suas inquietações de perfeccionista. Ela talvez nem imagine, mas sua existência me emociona. Apesar de pequena, não me intimido perto de sua majestade, dou-lhe abraços que gostariam de transpassar corpos e acarinhar direto cada emoção sentida. Quando discordamos, somos taxativas, murmurantes, gestuais [mulheres de fogo, não sabem falar apenas com a boca, precisamos do corpo inteiro para acompanhar nossas chamas] e, não raro, risonhas.

Falávamos de vida e, de repente, caímos na morte como tema. Particularmente, não temo a morte. Não gosto de seus avisos de aproximação em vida, mas não chego a temê-la. É nossa próxima etapa para algum estágio diferente ou para o nada [quem sabe?]. Minha amiga rebelde, entre lágrimas, conta de suas perdas e seus motivos para ser briguenta de vida, enquanto eu apenas sorvo suas histórias tão recheadas de beleza quanto suas lágrimas. É um momento leve e lindo, daqueles para se guardar na memória. Digo um pouco do que me transborda e ela ri. Pede-me para escrever seu epitáfio com palavras como aquelas. Eu conto que escreverei feliz os dizeres de sua lápide, um dia, daqui a muitos, muitos anos, mas que, antes disso, faço questão de eternizá-la em letras vivas neste mundo. Eulápide, nasci naquela conversa animada, que me afastou das tormentas e devolveu leveza às minhas horas. Minha loira majestosa, há de ter dizeres vivos que lhe intitulem a existência incendiária, porque nós existimos mesmo é nas histórias contadas, que nos eternizam.

É tão cheia de vida, que briga com suas dores [altiva] e decreta que irá a festas, visitas, passeios e tudo que lhe for de direito. Essa mulher faz jus à palavra existir e, não satisfeita, ainda contagia quem chega perto.

Vida longa, minha rainha!!

Ainda ontem…

ainda ontem

Oi, tudo bem com você? Sim, eu sei que está, acabei de te ver feliz, forte e sorridente. A cara da riqueza, a xerox da alegria. Fiquei feliz por você, realizando sonhos. Te vi de mãos dadas com algo do seu passado e até me reencontrei ali, entre suas fotos…quem diria?

Às vezes, eu sonho com você. Sonhos vívidos, super reais. Ainda lembro do gosto da sua boca e do som do teu riso. De como a gente rolava no tapete, brincando de brigar, de amar, de ser… Que bom, já consigo lembrar das coisas boas sem doer. Também lembro de todas as lições que você me deu…foram muitas! Diretas ou indiretas, elas fazem fileira no meu HD. Acho que você nem lembra mais de mim [no fundo duvido], mas tenho quase certeza de que meus ensinamentos também ficaram aí…embutidos em algum lugar esquecido.

Passei pra te contar que meu coração ainda descompassa quando te vejo, ainda me emociono com teus brilhos e em dias bons, até bebo do teu sorriso. Lindo. Caiu essa ficha agora, você não é lindo faz tempo…desde que… bom, melhor deixar pra lá. Não é mais lindo e mesmo assim, é assim que eu vejo. Lembro com riqueza de detalhes, das tuas coxas. Que coisa boba! Dos teus lábios finos, eu lembro da gula e do gosto…do café…nunca mais tomei igual. E olha que tentei! Já foi…junto contigo, que agora habita minha memória falha. Melhor assim. Fiz de você personagem, edito nossas falas antes que nos destruam, antes que viram ópio, ódio, doença. A única coisa que ainda não consegui, foi te arrancar de mim, te tirar dessa pele, que parece tua, muito mais que minha. Grudou. E nem quando meu vulcão explode em lava quente, ela me deixa…ao contrário, se aprofunda, se mescla…está tão enfronhado na minha existência, que habita meu inconsciente.

Falei demais, perdoa. Lembrei de quando ríamos disso, desse meu excesso de palavras que te confundiam embora fossem meus silêncios que incomodassem a tua vida. Vou nessa. Foi bom te ver. As crianças estão lindas…você também. Até a próxima…

Adeus.

Tempo Escorrido

“Eu não sei fazer metáforas

porque não compreendo metáforas.

Para mim, tudo é literal.”

– Eliane Brum –

Nua. Pálida em frente ao espelho. Silêncio. Apenas as marcas conversam entre nós. Escorro…meus olhos estão caindo…a pele está perdendo o viço. Desconheço o reflexo naquele espelho. Toco a pele diversas vezes, como quem quer ter certeza que ali na frente, aquela semi desconhecida ainda se move pela minha vontade. Acontece que a incerteza nasce…então…foi nesse rosto que me transformei?

Sorrio. Uma tentativa tímida e medrosa de reaver algo familiar ali. Não acontece. O rosto que sorri de volta tem lábios mais finos, sorriso estreito, dentes amarelados pelo tempo…não encontro o riso largo, imenso a dispensar lábios carnudos pela alegria de exibir um rosto feliz. Perdi…deve ter ficado em alguma foto do passado, há algum tempo atrás quando eu ainda conseguia ser leve. E crédula, claro.

Agora nos encontramos mergulhadas no silêncio mórbido, na perda, no esquecimento, nas dores…na estranheza…uma leve lembrança do rosto de antes, que mesmo se esvaindo em choro conseguia ter beleza, agora o olhar é triste até nos dias bonitos. Entranhou. As fotos viraram um borrão que só antecipa futuro. Envelheci muito antes do que imaginava. E não é só aqui no reflexo do espelho sem maquiagem…envelheci nas entranhas, que vão dando sinais de apodrecimento a cada mínimo exagero. Aprendi tarde a fazer escolhas que me protegem de mim, desse desamor, do mau humor do mundo, do mau olhado, crítico, sussurrado, enfadonho…Faz pouco tempo que fechei a porta para as vozes que só atormentavam e agora…Novamente cai no erro, no exagero das ansiedades, das expectativas, me atrevi a esperar respostas que não vieram…Envelheci cinco anos em uma semana…Angústias…São elas que aparecem no espelho quando olho. Estou vestida, numa tentativa insana de esconder meu corpo. Não adianta…minha alma tem olhos de raio x e, pelo aperto dos botões é gritante o inchaço…a gordura tentando aplacar ânsias, proteger do mundo, uma rota de fuga denunciada…

Não me preparei para o futuro. Jamais acreditei que ele chegaria. Agora estamos aqui, nos medimos frente a frente e o tempo ri. Ele sempre ganha a guerra, escorre a vida, acontece todo dia e desta vez, ludibria minha quietude. Escorremos…

Raízes e mudanças…

“Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve.”

escrita e planta

Era apenas uma mulher solitária, defendida dos abandonos da vida. Havia criado pra si uma redoma de nuvem, onde apenas ela e suas letras habitavam. Os livros eram seus confidentes, suas férias, suas viagens encantadas e seus melhores amigos. Os únicos parceiros cujo enlace não era passível de adeus, sem a sua conivência e permissão. Fazia deles, sua âncora existencial.

Habituou-se a usar palavras como escudo e silêncio como moradia. Afastou-se do mundo chamado de real, para habitar outros tantos…amores, tragédias, dores e alegrias. Era apenas uma menina cansada de apanhar. Refugiava-se entre páginas e não precisava dormir para sonhar. Seus apegos trocaram de lugar quando percebeu que os livros eram melhores em lhe mostrar caminhos do que as pessoas, que volta e meia resolviam embrutecer seu mundo.

Tinha alma de árvore…amava brisas e semeava-se com os ventos fortes. Sorvia tempestades com a alegria das marés que se reencontram…tinha sede de fincar raízes profundas num lugar só, onde o balé das folhas fizesse contraponto com seus silêncios. Para olhos dos outros  pareceria arredia, esquisita, deslocada, mas por dentro, escorria incêndios…reconhecia-se lava, sabia-se destrutiva quando amarga.

Recorria às palavras para salvar-se. Palavra escrita ou dita…maldita transformação perene. Fazia-se folha em branco entre suspiros. Pedia um pouco mais de respiro antes de desfalecer. Cortar raiz para se multiplicar, na tentativa confusa de existir um pouco mais…

*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras Aurea Cristina, Claudia CostaFernanda FarturettoLunna GuedesMaria CininhaMariana Gouveia e Tatiana Kielbeman

Viver feliz ou apaixonado?

“Tenho tudo para ser feliz

E isso está me enlouquecendo…”

– Paulo Coelho, em “Adultério” –

Adultério - PC

…Daí um dia como outro qualquer, onde você está imerso nos seus projetos, para esconder -se de si mesmo e sufocar o que corre internamente. De repente, alguém te tira da estrada planejada, com um pedido tão inesperado quanto interessante e você sai da sua rotina, feliz.

O outro chega, com sua cor, seu peso, sua intensidade gritante e te tira, sem querer e sem nenhuma consciência disso, do seu casulo pseudo protegido. Entre um olhar e um suspiro, você lembra, a fórceps que também é assim: exagerada e contagiante, mas por medo ou comodismo, vinha tentando se redesenhar…conter.

A palavra me soa como um tapa na cara, daqueles que você fica na dúvida se te doeu ou se você gostou. Acordo!

A vida, essa menina travessa, utiliza seus meios controversos para mudar nossos rumos. Por vezes, uma pessoa, por outras, um livro, filme, música, foto, acasos…

Coincidentemente (?) ao retomar a rotina de clausura dos projetos, nos momentos de folga, volto meus olhos para um livro que havia esquecido: “Adultério”.
Não creio em coincidências ou acasos… A protagonista do livro, como eu, vivia sua rotina na santa calmaria dos dias e se obrigava a deixar-se engolir pela ilusão do dia a dia “perfeito”. Até que um dia…o “outro” conta que não tem o menor compromisso com a felicidade, porque (e tão somente…) resolveu viver apaixonado.
Quando termino de ler esse parágrafo, o tapa na cara do outro dia, ressurge com força e me pergunto incomodada: “Quando foi que fiquei com medo de existir apaixonada?”
Esse foi apenas o pontapé inicial da minha jornada, rumo ao “lado B” que ainda desconheço, mas que me vez perceber, pela primeira vez em muito, muito tempo, troquei as dores físicas pela curiosidade de olhar o mundo lá fora…

“- Não tenho o menor interesse em ser feliz. Prefiro viver apaixonado, o que é um perigo, pois nunca sabemos o que vamos encontrar pela frente.”

E você, o que pensa sobre o assunto? Se é que ainda se pergunta sobre isso…

Silêncios que murmuram

“Não importava

se era bom ou ruim

o que escrevia.

Importava

transformar dor

em marca.”

– Eliane Brum –

silêncios

Ouve bem esse silêncio que grito em teus ouvidos
Ressentidos, magoados, reverberantes
Como dantes,
Te sussurrava palavras francas.

Vê bem esse tapa na cara
Que não te dou agora
Por estar fraca.
Cansada do esforço
de outrora.

Percebe a falta do sorriso,
do ouvido atento,
do pensamento
que antes, te mapeava sentimentos.
Segurava tua mão
e enxugava teus tormentos.

Sente a ausência do meu aroma doce
da minha casa pobre
do meu café fraco.
Encontra, apavorado e ansioso
por um desabafo
Um muro vazio…
Tão lotado de pesares
quanto o teu.

Vai … ouve bem
o silêncio que te cobre
surrado
vazio
esgotado
Pelas palavras que você não deu.